Sobre um conto borgeano e mentes alheias



A literatura do Borges me surpreende cada vez mais. Eu sempre começo a ler achando que encontrarei algo e me deparo com ideias completamente surreais, muito além do que a minha imaginação achava que encontraria. Às vezes até preciso parar pra pensar “Caramba, tem um homem que foi criado em um sonho e caminha sob o fogo” ou “Borges tá mesmo conversando com o Borges vinte anos mais velho prestes a se suicidar nesse conto?”

Eu gosto dessa brevidade e magia dos contos que abordam o realismo mágico. É ler Felisberto Hernandez e conhecer uma mulher que se apaixona pelo seu balcão. Tudo isso em poucas páginas. É demais. Me faz andar pela rua e imaginar em que momento uma coisa louca vai acontecer ou quando eu vou cair em uma toca de coelho e mudar de tamanho constantemente perto de uma lagarta que fuma.

A surpresa dessa vez foi por causa do A memória do Shakespeare. Confesso que comprei o Nove ensaios dantescos & A memória de Shakespeare por causa do Dante. Eu queria saber o que Borges falou sobre A divina comédia, essa viagem louca que também me surpreende cada vez mais, gerando sentimentos diversos. Diversos, porém, bons. Estou amando andar pelo além-vida com dois poetas.

Sobre o livro: a edição da Companhia das Letras é tão linda que nem sei por onde começar. Não sei se é a capa que me encanta, o nome do Borges em evidência, a fonte, o papel amarelado. Talvez seja o fato de que você abre o livro e vê uma foto do Borges olhando pra cima. A edição toda é bem perfeitinha mesmo.

Tentei ver o que Borges via, mas não sei se deu


Comprei o livro e não sabia muito bem o que esperar sobre a segunda parte. Ela tem quatros contos, que eu estou lendo aos pouquinhos. Hoje eu li A memória de Shakespeare. Nele, um homem é um fã do poeta inglês. Fã de pesquisar, de dedicar a vida estudando o autor. Em uma conversa com outro admirador, ele recebe a oferta de ser portador da memória do Shakespeare. Lembrar de tudo que aconteceu com ele dentro da sua mente, como se fosse uma memória de uma vida vivida por você.

O quão incrível?

Não faz pensar em que mente a gente gostaria de viver? De qual autor conheceríamos o cotidiano e o interior? Sempre penso em entrar na mente da Sylvia Plath, mas não sei se aguentaria tantos sentimentos, tanta intensidade. Seria como andar em cima de um vulcão em atividade.

Eu entraria na mente de alguém? Gostaria de ter lembranças alheias? Esse conto faz pensar, dá margem pra tanta reflexão. No final, tudo tem uma vibe meio Quero ser John Malkovich.

A gente aguenta viver na mente de outra pessoa? 



10 comentários:

  1. Muito bom o post! Curti muito e mais ainda a foto. =)

    Bjinho

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  2. Olá Laisa, tudo bem ???
    Tenho que confessar que nunca li nada, nadinha do Borges. Mas assim que vi Shakespeare ali no título do livro eu fiquei curiosa.
    Sou uma fã assumida de Shakespeare, gosto do autor desde muito nova e nunca me decepciono com ele. Até iniciei um projeto literário para divulgar as obras desse autor adorável !!!
    Vou pesquisar aqui mais um pouquinho sobre essa obra, se gostar do que vi, com certeza lerei !!!

    Beijinhos
    Hear the Bells

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    1. Oi! Tudo sim e com você???

      Que demais! Começo muito pouco sobre esse autor, até gostaria de saber por onde começar... Tenho muito interesse por Macbeth...

      Vou procurar mais sobre o seu projeto literário! Alias, você aceitaria as memórias de Shakespeare? hahaha

      Bjs

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  3. Assim que pensei em qual mente eu gostaria de conhecer, Poe foi a primeira pessoa que me veio a mente. <3

    Abraço,
    milenaschabat.blogspot.com

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    1. Nossa, sim! Viver dentro da mente do Poe deve ser uma experiência e tanta!

      Bjs

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  4. Quero Ser John Malkovich é muito louco, adoro. Eu gostaria de viver na mente de outra pessoa para ver se é tão conturbada quanto a minha haha. Beijos
    www.purpurinaacida.com

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    1. Também adoro esse filme, muito louco mesmo! (Aliás, super recomendo o Adaptação, já viu?)

      Hahaha eu também!!! No fundo, todos nós devemos ter a mente meio conturbada mesmo...

      Bjs

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  5. Olá, Laisa! Tudo bem?

    Ainda não li nada do Borges, mas tenho curiosidade. Gostei do seu ponto de vista. Me pareceu o tipo de livro que nos tira de nossa zona de conforto de uma forma branda. E que nos surpreende.

    Uma ótima semana!http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Renato! Tudo sim e com você?

      Obrigada! Super recomendo Borges. Você acertou em cheio: é uma saída da zona de conforto, o que é gratificante.

      Bjs

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