Resenha: Um Teto Todo Seu - Virginia Woolf


Título

Um teto todo seu 

Autora



Virginia Woolf nasceu em Londres, na Inglaterra, em 1882. Aquariana. Foi escritora, ensaísta e editora. 

De veia modernista, usou com o frequência o fluxo de consciência. Um exemplo de como a autora adentrava, sem medo, a consciência, a mente das personagens é um de seus romances mais famosos: Mrs Dalloway. O romance inteiro gira em torno de apenas um dia na vida de uma mulher. 

Engraçado perceber as coincidências da vida. Virginia criticava James Joyce e um dos romances mais famosos do escritor também é ricamente composto por pensamentos e se trata de apenas um dia na vida de um personagem. No caso, Ulysses. 

Woolf sofria de depressão e se suicidou em 1941, entrando em um rio com os bolsos do casaco cheios de pedras, consequentemente, se afogando. 

Contexto do lançamento


Um teto todo seu foi publicado em 1929. Woolf tinha 47 anos. Fora o ano em que a Bolsa de Valores de NY quebrara. Época que recebeu um nome melancólico: Grande Depressão. Anne Frank, Martin Luther King e Milan Kundera nasceram. O prêmio Oscar foi entregue pela primeira vez. Faulkner lançou o O som e a fúria

Sobre

Um teto todo seu é um ensaio. Em 1928, Virginia Woolf foi convidada para dar palestras em duas escolas para meninas na universidade de Cambridge. Pediram para que ela falasse sobre a questão da mulher e da literatura. Sobre a mulher na literatura, como agente ativo, participante na construção de obras. 

No início do ensaio, a escritora narra eventos da sua vida até à epifania que dá título ao ensaio. Em um momento muito interessante, ela fala sobre um jantar. Ela comenta como os romancistas abordam as refeições como situações que possuem a pura finalidade de que algo importante aconteça ou que algo relevante seja dito, mas nunca como o que simplesmente é: pessoas sentadas em volta de uma mesa comendo alimentos.

"Faz parte do consenso (...) não mencionar sopa, salmão e pato, como se (...) não tivessem importância alguma, como se ninguém jamais tivesse fumado um charuto ou bebido um copo de vinho. Aqui, no entanto, tomarei a liberdade de desafiar esse consenso e dizer-lhes que o almoço, nessa ocasião, começou com filés de linguado num prato fundo (...)"

 Achei muito pertinente esse relato. Novamente me lembra James Joyce (perdão, Virginia, sei que você não gostava dele). Em Ulysses também há descrições (tidas como) banais. O personagem principal, Bloom, prepara refeições, conversa com o gato e faz cocô. Tudo é descrito. Talvez a questão aqui seja toda sobre o modernismo. Sobre como todos os escritores que o seguiram buscavam a mesma coisa: a desmitificação da literatura, novas tentativas de fazer arte e mostrar o ser humano de outra forma. 

Além disso, é muito interessante saber o que Virginia Woolf jantava. É bom saber que esses escritores também eram gente como a gente. Apreciavam um filé de linguado e tudo mais. 

A epifania, no final das contas, é a seguinte: para que a mulher consiga seu espaço na literatura, ela necessita de uma casa só sua. Mais do que um lugar calmo para que ela escreva, a casa simboliza algo muito maior. O que a escritora quer dizer é que a mulher necessita de emancipação financeira e pessoal. Ela precisa ter sua própria renda, não necessitar financeiramente (e nem pessoalmente, não é mesmo?) de um parceiro. 

Para que a mulher possa desfrutar da carreira de escritora, ela precisa vencer obstáculos do machismo, das convenções sociais e todos os preconceitos construídos há tanto tempo. 
Esse não é o único ensaio feminista de Virginia Woolf. Ainda bem. Mais do que a literatura, ela aborda o que é ser mulher na sociedade. 

Um ponto famoso do ensaio é o "E se...?" que a autora cria. E se Shakespeare tivesse nascido mulher? O mesmo talento, apenas o gênero diferente. E se ele tivesse nascido mulher, o que teria acontecido? A discrepância é gritante. Virginia discorre sobre esse fato hipotético e dali saem questionamentos provocadores e muito pertinentes. 

Um deles é a castidade. Ela diz como "a castidade pode ser um fetiche inventado por certas sociedade por motivos desconhecidos" e que foi agregado a ela um teor religioso que exige coragem para que a mulher se liberte de tal pensamento. 

Quando Virginia Woolf foi fazer sua pesquisa para a criação desse discurso, ela encontrou vários autores afirmando que as mulheres eram inferiores. Em resposta, ela afirma que alguns homens falam sobre a "inferioridade" feminina apenas para a manutenção da ideia vigente sobre a "superioridade" masculina. Não é como se eles se importassem com isso, eles apenas não querem sair do topo. 


Virginia e Inês falam mesmo

O que eu não concordei com a autora foi a questão de Jane Eyre. A Virginia critica a Charlote Brönte por ter transparecido em seu romance todo o ódio e a dor que a escritora sentia por todos os preconceitos enfrentados por ser mulher. 
Eu acredito que literatura tá aí a serviço da dor. Acho que todas essas questões devem ser abordadas com palavras. 

Ano passado eu estava conversando com uma amiga sobre literatura. Nós duas escrevemos e sentimos que sempre que escrevíamos sobre amor ou qualquer outro sentimento, o texto era taxado como "literatura menor". Homens escrevendo sobre o mesmo assunto são sensíveis e elogiados. Mulheres são empurradas para categorias chick lit. Principalmente quando você escreve poesia, de teor tão subjetivo. Você escuta frases como "É tão poesia de menininha" e derivados. 

Woolf aponta para esse fato. Em 1928, ela já tinha percebido que a literatura feita por homens é tida como importante. Livros escritos sobre a guerra são tidos como mais importantes e sérios do que sentimentos descritos por mulheres. 

Não é nada disso. Simplesmente. 

Sentimentos são importantes, são reais. Não há nada de menor em escrever sobre isso. 



A representatividade feminina também é abordada. Woolf aponta para o fato de que na época das tragédias gregas, personagens femininas marcantes eram comuns. Fedra, Medeia, Antígona. As Bacantes é uma peça sobre mulheres que cultuavam Dionísio em um bosque. Elas dançavam e possuíam força suficiente para matar qualquer animal. Elas tinham cobras no cabelo. O quão incrível tudo isso é? São mênades!!! 

Eu queria ser uma mênade. 

A questão é que em meio a tantas histórias com personagens femininas fortes, a sociedade da época tratava as mulheres como seres fracos. Como escravas. Elas não possuíam direito algum. 

A literatura era toda vista por olhos masculinos, o que aconteceu por muito tempo. Até hoje vivemos isso. 

Virginia diz como a maioria dos livros possuem a visão masculina do que é ser mulher. Eles só abordam relações entre mulheres e homens. Amizade entre mulheres? Raro. As chances de não passarem no teste de Bechdel são grandes. Sem falar que a visão masculina faz com que a mulher seja mitificada. 

Só Deus sabe o que a Capitu tá ouvindo até hoje. 

Eu peguei um livro teórico, com a participação de vários autores, sobre o romance do Machado. Todo focado na Capitu. O título já questiona: Quem é Capitu?

E não é que no meio de tanta coisa, eu encontro um artigo do Millôr Fernandes que saiu na revista Veja, em 2005, falando que o Escobar "comeu" a Capitu. O autor coloca a mulher no lugar de simples objeto que pode ser possuído, comido, consumido. Afirma que o Bentinho é corno e ainda diz: "Capitu deu para Escobar". Precisava? 

Dar, comer. Capitu é objetificada como sereia, adúltera, provocadora. Culpada por apenas olhar para as pessoas. 

No mesmo livro, Lya Luft escreve uma narração do ponto de vista de Capitu. Nele, a personagem traiu Bentinho. Contudo, apesar de partirem da mesma premissa, a semelhança com o artigo é nula. O texto da escritora é muito mais lírico, sofisticado. Uma experiência que me agradou enquanto leitora.  

É por isso que é tão importante quando Virginia Woolf diz que a mulher tem que escrever. Sobre o que ela quiser. Qualquer assunto. Ela precisa colocar em palavras o que é ser mulher. Por mais que seja um caminho difícil, nossa voz tem que ser ouvida. 

Como Virginia disse: não há portão, fechadura ou trinco que possam colocar na liberdade da nossa mente. 

A leitura do ensaio foi fluída e muito boa. Em uma palavra: inspirador. 


Bom pra quem gosta de...

... debates sobre a questão da mulher, feminismo, literatura, desconstruir paradigmas, escrever. 

Sobre a edição


A edição que eu tenho foi lançada em 1991, pelo Círculo do Livro. Ela tem 141 páginas. 

Gosto bastante dos livros do Círculo. A capa é dura. A fonte é grande, minha miopia amou. 



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