Resenha: O Som e a Fúria - William Faulkner



Título


O som e a fúria


Autor





William Faulkner nasceu no Mississippi, nos EUA, em 1897. Libriano. Foi escritor. Considerado, do seu país, um dos mais importantes do século XX.

Faulkner escreveu bastante sobre o tema da decadência do sul dos EUA. Região conhecida pelo antigo sistema escravista e foco na agricultura. Ele criou um condado sulista onde suas histórias acontecem: Yoknapatawpha. O nome é demais. Usou o fluxo de consciência para fazer com que o leitor entrasse na mente das personagens. 

Ele morreu em 1962, por causa de algumas complicações cardíacas. 


Contexto do lançamento 


O som e a fúria foi lançado em 1929. Faulkner tinha 32 anos. Ano em que a Bolsa de Valores de Nova York quebrou e deu início à Grande Depressão, uma crise econômica bem séria. Acho muito interessante como o Faulkner lançou um livro que fala  sobre a dor e a tristeza em uma época que recebeu um nome referente à depressão. 

Conta a lenda que Faulkner tinha sido rejeitado por algumas editoras. Então ele decidiu que ele se dedicaria ao livro que ele realmente queria escrever. Sem se importar se venderia, sem se importar com os editores. Daí nasceu O som e a fúria. Um livro, estruturalmente, bem louco que lhe deu renome e sucesso entre os críticos (mas não sucesso comercial). 


Sobre



O foco é todo na família Compson. Uma família em decadência financeira e que assiste ao próprio fim de seu prestígio social. Eles tem uma fazenda enorme, empregados (que recebem um tratamento cheio de resquícios da escravidão), mas estão em processo de deterioração. 

O local é o sul dos EUA. O período é difícil dizer. O Tempo é um conceito muito trabalhado nesse romance, de diferentes maneiras. Cada personagem o sente de uma forma. 

O livro é dividido em quatro partes. Cada parte é um dia na vida de um personagem. Então temos a experiência de viver três dias na cabeça dos três irmãos (Benjy, Quentin e Jason). Todos meio obcecados pela irmã, Caddy. A quarta parte é feita por um narrador onisciente, mas foca bastante na empregada da família, a Dilsey. 

Tem essa peça do Shakespeare chamada Macbeth. Nele, o personagem que dá nome à peça diz que a vida é "uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada". 

É exatamente isso que acontece. 

A primeira parte é narrada pelo Benjy. Um homem tido como "idiota" por todos os outros. Em nenhum momento do livro o leitor sabe exatamente qual é a sua doença. Ele não consegue se expressar. Ao tentar falar, berra. Ele chora, baba. É surdo-mudo. Enfim, é uma situação difícil. 

No começo, sem muitas informações, achei que era autismo, mas não é. A maior parte dos críticos acredita que seja síndrome de Down, mas também não sei se é. No final das contas, ficou marcado que o nome da condição do Benjy não importa. O foco aqui é outro. 

É incrível entrar na sua cabeça. O Benjy não faz distinção de presente, passado e futuro. Ou seja, tudo acontece ao mesmo tempo. A narração vai estar indo bem ok, aí começa um trecho em itálico que você não faz ideia da onde que veio. 

É uma viagem. E é bom deixar ser levado por ela. As informações vão chegando aos poucos. 

Alguns críticos já encontraram 8, 14, 16, 20 temporalidades diferentes nessa primeira parte, que ocorre no dia 7 de abril de 1928. A mente do Benjy é um caleidoscópio de dor e lembranças. É viagem no tempo atrás de viagem no tempo. 

Mas o que tá acontecendo afinal de contas? 



A Caddy tá acontecendo. 

Ela é uma mulher forte e transgressora. Desde o início da história, quando eles eram crianças, ela era a pessoa que estava 100% nem aí, subia na árvore mesmo quando diziam para ela não subir. 

Ela é uma figura materna para Benjy e Quentin, embora de maneira meio sexualizada. É a única que tem paciência para lidar com o Benjy. E é grudada com o Quentin. 

Para Benjy, ela tem cheiro de árvore. 

Mas perde esse cheiro na adolescência. Porque estamos num período conservador e machista e Caddy será atingida por isso. Ela perde esse "cheiro de árvore" quando começa a ter relações sexuais com alguns homens no bosque. É toda aquela ideia de "pureza feminina". Caddy continua 100% nem aí para o que as pessoas pensam. 

Faulkner, além das quatro partes, escreveu um apêndice, onde conta o futuro dos personagens e mais umas coisinhas interessantes. Uma delas é o fato de que, para Caddy, o hímem era apenas um "frágil empecilho físico" que não valia nada. 

A Caddy é demais. 

Acontece que ela fica grávida e a família não aceita que isso tenha acontecido antes do casamento. Muita coisa acontece depois, mas só vou deixar uma dica aqui: a filhinha dela também se chama Quentin. 

E falando em Quentin... Quem fica obcecado por essa ideia do hímen é ele. 

Para "salvar" a irmã, ele propõe dizer ao pai que o filho é dele e que eles cometeram incesto. Não satisfeito com isso, propõe até suicídio duplo. 

O dia 2 de junho de 1910 é dele. Um dia muito importante, por sinal. O Quentin é apaixonado pela morte e a irmã não sai de seus pensamentos. Basta dizer isso. 



O pai deles vendeu um pedaço da terra para que ele estudasse em Harvard, mas ele não se importa muito com isso. Ele está focado na sua dor e em como evitar o tempo. Ele está absolutamente empacado no tempo. Não quer o futuro, quer voltar ao passado. Voltar para a época em que ele estava ao lado da irmã e eles eram felizes. Só que isso é impossível. Viagem no tempo só dá pra fazer na mente.

A terceira parte se passa no dia 6 de abril de 1928, um dia antes da memória do Benjy.  Temos aqui a mente do Jason, um homem irritante, machista, insuportável. O filho mais excluído que deixou o seu coração se transformar em uma cachoeira de puro rancor. 

O problema dele é que ele odeia todo mundo. Principalmente a filha da Caddy, Quentin. 

Logo depois vivemos o dia 8 de abril de 1928, um dia depois da narração de Benjy, pelos olhos de um narrador onisciente. Aí temos um vislumbre de vários personagens. 

Só queria tirar um segundo para dizer o quão bonita é a narração empregada pelo Faulkner. É aquela prosa poética que te faz ler a mesma linha duas vezes, só pra poder sentir tudo o que há para ser sentido. A estrutura narrativa começa bem difícil com o Benjy. Há itálico, há confusão, falta de acentuação. E isso continua, de certa forma, com o Quentin. Ele é todo fluxo de consciência. Depois vai ficando mais linear, a partir do Jason. Nunca deixa de ser belo. É apenas um livro complicado, que vai se abrindo, ficando mais fácil. 

O Modernismo tem dessas. Li esse livro para uma aula sobre o modernismo inglês e o professor comentou como as obras dessa época resistem ao consumo imediato. Não dá pra consumi-los como qualquer outra mercadoria. É livro-desafio. É literatura desconstruída e praticada livremente. É embarcar em uma viagem e encontrar novas sensações e conflitos. 

O professor também disse: "O livro é bom, mas é um inferno."

E é mesmo. É difícil se situar, leva um tempo. Aí é que entra outra coisa que eu aprendi na aula: a importância da não-compreensão. 

Do momento em que acordamos até o momento em que dormimos, entendemos as coisas. 

Se a luz é ligada, você sabe o que tá acontecendo. Se alguém fecha a janela, você entende o que aquele ato representa. Você está situado. 

A não-compreensão desestabiliza. É difícil se entregar e não saber o que está acontecendo. Temos que valorizar isso. O livro te desestabiliza, é um quebra-cabeça esperando ser montado. 

A dica que eu dou é: procurem a história inteira. Eu só contei até uma parte, porque não quero dar spoilers, mas procurem o resto, caso a não-compreensão esteja insuportável. Muita coisa acontece ali. Quentin comete algo sério no dia 1910, em relação a ele mesmo. A história da Caddy se casar é toda cheia de detalhes. O que aconteceu com ela? Por que o Jason tem tanta raiva da Quentin? 

É um romance, escrito de forma sensível e poética, sobre uma família disfuncional. Todos estão sofrendo, todos sentem dor e todos não conseguem aceitar o conceito do Tempo. 

Várias marcações


Bom pra quem gosta de... 


... desafios, mil temporalidades, narração maluca, problemas familiares, narração bonita.


Cinema 


Uma adaptação desse livro foi lançada em 2014. É dirigida e estrelada pelo James Franco. Pelo que eu fiquei sabendo, ele interpretou o Benjy. Estou super ansiosa para assistir. 



Sobre a edição 


Eu tenho a edição da finada Cosac Naify. É da coleção portátil, logo, é como uma edição de bolso. A capa é um pouco frágil, ele é pequeno e o preço é menor. Gosto muito das páginas, elas são meio amareladas. A fonte é boa também. 

Essa edição foi lançada em 2012. Possui 379 páginas. 


Um trecho 


"Era o relógio do meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe esse relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios."

Tá tatuado na alma. 


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