Resenha: A Mulher Calada - Janet Malcom



Título


A mulher calada


Autora




Janet Malcolm nasceu em Praga, na República Checa, em 1934. Foi com a família para os EUA em 1939. É escritora e jornalista do New Yorker. Escreveu vários livros de reportagem. 


A figura abordada na biografia



Sylvia Plath nasceu em Massachusetts, nos EUA, em 1932. Escorpiana. E isso explica muita coisa. Foi poetisa, romancista e contista. 

A maior parte da sua obra é focada na sua dor. A forma como ela falava sobre seus problemas psicológicos e tentativas de suicídio era sensível e brilhante. Escreveu apenas um romance, A redoma de vidro, que possui diversos elementos autobiográficos. 

Em 1963, ela cometeu suicídio, colocando a cabeça dentro do forno com o gás ligado. Ela tinha 30 anos. 

Contexto do lançamento 


A mulher calada foi lançado em 1994. Janet Malcolm tinha 60 anos. Ano em que Nelson Mandela assumiu a presidência da África do Sul, sendo o primeiro presidente negro do país. Entrou em circulação, no Brasil, o Real. Pulp Fiction, do Tarantino, ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Charles Bukowski e Mário Quintana morreram. 


Sobre


Na edição lançada pela Companhia das Letras, em 2012, logo abaixo do título encontram-se as seguintes palavras: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia. 

Taí um ótimo resumo do livro. 

O livro não é uma biografia propriamente dita. Não conta toda a história da Sylvia Plath. Nem de longe é linear. Envolve muita informação pós-morte da escritora. 

Se o livro fosse um universo ou algo do tipo, Sylvia Plath seria a figura do sol. Tudo no livro gira em torno da figura mítica em que ela se tornou. A dor, o silêncio, a poesia, o suicídio. Há muitas informações interessantes. Há muitas pequenas histórias e uso de cartas. O quão surpresa eu não fiquei ao descobrir que a Sylvia Plath era gente como a gente. Até escreveu sobre sentir um prazer quase sexual em colocar o dedo dentro do nariz. 

Uma carta que me marcou muito foi uma que a Sylvia escreveu para Sassoon, em 1955. Nela, ela diz que "quando nos descobrimos querendo tudo, talvez seja por estarmos muito perto do perigo de não querer nada."

É aquela luta, aquela ambição, que no fundo esconde uma crescente indiferença. Algo muito perigoso para quem sofre de depressão ou algo do gênero. 

Além disso, Janet entrevista muitas pessoas que tiveram algum tipo de contato com a escritora quando ela estava viva. Uma delas diz que Sylvia nunca foi uma moça suave e emotiva. 

Para continuar a metáfora do universo e tudo mais, Ted Hughes seria uma espécie de planeta nesse sistema solar. Ou uma lua de um planeta chamado Plath. Em seus diários, a autora escreveu que sentia fome de um amor imenso irresistível criativo borbulhante e carregado. Acredito que ela tenha tido isso com Ted, mas o fim foi trágico. 

Ele a traía, ela descobriu e eles se separaram. Sylvia sofreu muito. Foi morar sozinha com os dois filhos em um apartamento. Janet entrevistou o vizinho que a viu antes do suicídio. Além disso, ela entrevistou uma amiga para quem Sylvia confessou seus sentimentos acerca da traição. 

"Mas a coisa mais assustadora que ela me disse foi: "Quando você entrega todo o coração a uma pessoa e ela não aceita, não dá pra pegar de volta. Você o perde para sempre."

 São palavras pungentes. 




O problema é que, após o suicídio, Ted ficou responsável pelas obras feitas em vida por Sylvia. Ele cortou vários poemas e textos dos diários, vários deles que se referiam ao casamento entre os dois. Apesar dele ser um participante dessa história toda, ele tem mesmo que interceptar o que foi escrito por Sylvia Plath? 

A mulher calada não aborda apenas o assunto Ted Hughes, aborda também a irmã, Olwyn Hughes. Ela não tinha uma das melhores relações com Sylvia. Janet aborda toda a influência dos irmãos nas criações das biografias sobre Plath.  Toda a dificuldade de se entender a pessoa sobre a qual está se escrevendo e sobre como lidar com os vivos que a conheceram. Os irmãos estão constantemente censurando quem tenta embarcar nessa viagem de escrever uma biografia sobre Plath. Aí é que entra toda a discussão sobre os limites da biografia citada na capa do livro. 

É um debate interessante. Em nenhum momento fica maçante ou algo do tipo. Janet Malcolm faz ótimas referências. A que eu mais gostei foi uma sobre a ida da americana Plath para morar na Inglaterra. Ela é colocada como Isabel Archer, do romance Retrato de uma senhora. Ted é Osmond e Olwyn é Madame Merle. Achei GENIAL. 

Claro que a minha vontade era de sempre ler histórias sobre a Sylvia Plath, mas para isso acredito que terei que embarcar nas diversas biografias escritas e nos diários. 

A mulher calada foi mais uma espécie de Inception. Só que ao invés de um sonho dentro de um sonho, foi uma discussão sobre biografias dentro de uma (diferente) biografia. 

No final das contas, me lembrei de outra leitura feita em 2016. Li um romance do Bernardo Carvalho, chamado Nove noites. É a tentativa de reconstruir a história de Buell Quain, um antropólogo americano que veio ao Brasil para estudar a cultura índigena e acabou se suicidando. No livro, o autor cita uma frase de Quain que me remete à A mulher calada: "Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos". Ted Hughes que o diga. 


Bom pra quem gosta de...


... Sylvia Plath, debate sobre a literatura, biografias.


Sobre a edição 


Li no kindle. Morro de vontade de ter o livro físico, na edição (que é de bolso) da Companhia das Letras, já que a capa é toda linda com metade do rosto da Sylvia. 




Um trecho 


"É só à custa de um grande esforço que nos obrigamos a agir, a lutar, a nos fazermos ouvir acima do som do vento, a esmagar flores enquanto andamos. Que nos comportamos como gente viva". 

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