Sobre um conto borgeano e mentes alheias



A literatura do Borges me surpreende cada vez mais. Eu sempre começo a ler achando que encontrarei algo e me deparo com ideias completamente surreais, muito além do que a minha imaginação achava que encontraria. Às vezes até preciso parar pra pensar “Caramba, tem um homem que foi criado em um sonho e caminha sob o fogo” ou “Borges tá mesmo conversando com o Borges vinte anos mais velho prestes a se suicidar nesse conto?”

Eu gosto dessa brevidade e magia dos contos que abordam o realismo mágico. É ler Felisberto Hernandez e conhecer uma mulher que se apaixona pelo seu balcão. Tudo isso em poucas páginas. É demais. Me faz andar pela rua e imaginar em que momento uma coisa louca vai acontecer ou quando eu vou cair em uma toca de coelho e mudar de tamanho constantemente perto de uma lagarta que fuma.

A surpresa dessa vez foi por causa do A memória do Shakespeare. Confesso que comprei o Nove ensaios dantescos & A memória de Shakespeare por causa do Dante. Eu queria saber o que Borges falou sobre A divina comédia, essa viagem louca que também me surpreende cada vez mais, gerando sentimentos diversos. Diversos, porém, bons. Estou amando andar pelo além-vida com dois poetas.

Sobre o livro: a edição da Companhia das Letras é tão linda que nem sei por onde começar. Não sei se é a capa que me encanta, o nome do Borges em evidência, a fonte, o papel amarelado. Talvez seja o fato de que você abre o livro e vê uma foto do Borges olhando pra cima. A edição toda é bem perfeitinha mesmo.

Tentei ver o que Borges via, mas não sei se deu


Comprei o livro e não sabia muito bem o que esperar sobre a segunda parte. Ela tem quatros contos, que eu estou lendo aos pouquinhos. Hoje eu li A memória de Shakespeare. Nele, um homem é um fã do poeta inglês. Fã de pesquisar, de dedicar a vida estudando o autor. Em uma conversa com outro admirador, ele recebe a oferta de ser portador da memória do Shakespeare. Lembrar de tudo que aconteceu com ele dentro da sua mente, como se fosse uma memória de uma vida vivida por você.

O quão incrível?

Não faz pensar em que mente a gente gostaria de viver? De qual autor conheceríamos o cotidiano e o interior? Sempre penso em entrar na mente da Sylvia Plath, mas não sei se aguentaria tantos sentimentos, tanta intensidade. Seria como andar em cima de um vulcão em atividade.

Eu entraria na mente de alguém? Gostaria de ter lembranças alheias? Esse conto faz pensar, dá margem pra tanta reflexão. No final, tudo tem uma vibe meio Quero ser John Malkovich.

A gente aguenta viver na mente de outra pessoa? 



Reação: primeiras fotos de Neil Patrick Harris como Conde Olaf





Fica até difícil escrever por causa das emoções. 


Quando eu tinha 13 anos comecei a ler Desventuras em série. Foram, coincidentemente, 13 livros que me moldaram como pessoa, leitora e escritora. Série preferida mesmo. 



Nunca vou me esquecer da história dos três órfãos Baudelaire que sofreram muito nas mãos do seu tutor, Conde Olaf. Ele estava atrás da herança dos meninos e foram 13 livros de muita perseguição, disfarces cômicos e sofrimentos. Sim, porque o autor já deixa claro no início que essa é uma história triste. Os órfãos estão constantemente em fuga, parando em lugares bizarros e tentando descobrir o mistério (e que mistério) em que os seus pais estavam envolvidos. 



Violet, Klaus e Sunny  tem dons e características próprias e sempre saem dessas enrascadas usando o que eles sabem e o que eles tem ao seu redor. Acho que sempre admirei essa coragem, inteligência e como eles se tornam autossuficientes. Além do companheirismo gigante que eles tinham um pelo outro. 



O Daniel Handler escreve de maneira irônica. Ele provoca o leitor, conversa com ele. Brinca com metáforas maravilhosas e construiu uma cena que moldou a minha vida: nunca vou me esquecer de quando a Violet diz para o Olaf que ele nunca conseguiria sair com um barco em determinada situação (acho que eles estavam em cima de um prédio [?]) por causa da lei da gravidade e ele simplesmente vira e diz: "Bom, acho que terei que colocar a gravidade na lista de meus inimigos". 

É um personagem que coloca a GRAVIDADE como inimiga simplesmente por ela estar na frente dos seus planos. Ele é louco, mas suas atitudes chegam a ser cômicas. É como se ele vivesse em um mundo diferente. 

Tem um filme muito bacana, feito em 2004. Eu, pelo menos, gostei. 



Só que a Netflix (segura esse meu coração, só vem série boa daí) vai fazer a sua adaptação de Desventuras em série. 



As gravações começaram recentemente, no Canadá. E as primeiras fotos saíram ontem (26). O Neil Patrick Harris (lembra de How I met your mother? Lembra de AHS: Freak Show?) vai interpretar o Conde Olaf! Trabalho que foi feito pelo Jim Carrey no filme. 



Eu confesso que quando soube que ele tinha sido escolhido, fiquei na dúvida, devido à aparência mesmo, porque curto o trabalho do ator. Após essa caracterização eu não posso falar nada! Ele está idêntico ao personagem. 




O livro possui diversas ilustrações lindas da história e olhem como ficou parecido. Simplesmente É o Conde Olaf aí. 



Estou ansiosa pra série? Estou morrendo de ansiedade. E de felicidade. 

O que me motivou a iniciar um projeto. Já faz sete anos que terminei de ler a série, as lembranças estão nubladas, quase não lembro dos mistérios. Já não tenho mais aquela agenda livre de 13 anos em que eu passava toda tarde lendo. Agora tenho leituras da faculdade, casa pra arrumar (morar longe dos pais é isso: miojo, limpeza, bisnaguinha com manteiga) e responsabilidades, mas pretendo começar, lentamente, a ler toda a série de novo. Pra fazer um esquenta pra série. E ver o que eu acho dessa leitura agora que tanto tempo passou. Espero que ainda tenha aquele sentimento "caramba, como eu queria escrever igual esse autor" e que continue me dando vontade de escrever. 

O Mau Começo já tá no kindle. Vamos ver o que acontece. 

E vamos ver o teaser que já saiu. Com Dresden Dolls como trilha sonora!


Astrologia em Harry Potter



Eu percebi algo importante enquanto fazia um teste do BuzzFeed sobre o quão bem eu conhecia a Hermione Granger. 

Há mais ou menos dois anos, eu comecei a me interessar por astrologia. Eu ainda sou bem leiga e amadora, confesso, mas estou estudando. Sempre estou em busca de livros, informações. Acho divertido observar o comportamento das pessoas e tentar entender o mapa astral delas. 

Eu estava fazendo o teste e uma pergunta era sobre a data de nascimento da Hermione. Pensei em chutar, nunca lembraria desse detalhe. Mas aí pensei em adivinhar pelo signo. Havia lá umas opções com o elemento fogo e água. Não acreditei que fosse algo do tipo. A primeira opção era Virgem. Na hora pensei que todo aquele controle, perfeccionismo e realismo saíram dali. E não é que tava certo?

Foi quando eu percebi que eu pensava em astrologia demais. E foi quando eu percebi que eu queria saber o signo de todos os personagens de Harry Potter. 



O engraçado é que, uma vez, eu fiz uma brincadeira com um amigo sobre como não importa para onde uma conversa vá, ela sempre dá um jeito de chegar em Harry Potter. 

Acho que primeiramente devo dizer que a J.K. Rowling é leonina. 



Harry Potter


Harry sempre corajoso, se arriscando com animais fantásticos e tudo mais

Harry nasceu dia 31 de julho. É leonino. Assim como a autora. Acho que isso explica o motivo pelo qual a história gira em torno dele. Como se ele fosse, literalmente, o sol da saga. Aliás, ele é. 

A presença dele é magnética. Todos prestavam atenção no menino. Posso estar falando besteira, afinal, terminei de ler a série quando tinha 13 anos e daqui a pouco faço 20 (as lembranças estão nubladas), mas eu lembro de uns momentos em que o Harry ficava comentando sobre a sua situação, sobre os seus sentimentos e sofrimentos. Acho que ele tinha esse ladinho individualista de Leão. Mas também era super corajoso, o que eu vejo bastante nos signos do elemento fogo. 

Outro ponto engraçado é que o símbolo da Grifinória é um leão!



Rony Weasley 




Rony nasceu dia 3 de março. É de Peixes. Achei uma fofura. Acho que ele era sim todo fofinho, desastrado, distraído. E ele era super sensível. Lembro de vários momentos em Relíquias da morte em que ele deixou os sentimentos aflorarem com grande intensidade. Lembro de momentos em que ele achava que vivia na sombra do Harry ou sentia ciúme da Hermione. Não é surpresa ele ter tido umas reações emocionais. 



Além disso, sempre notei uma divergência entre fogo e água. Pessoas de fogo tendem à sinceridade sem rodeios. Água é mais sensível. É uma dinâmica interessante a de Rony e Harry. 


Hermione Granger 






Mione nasceu dia 19 de setembro. É virginiana. Toda moderada, pé no chão (lembra quando ela avisava os meninos que eles podiam ser expulsos?). 

Dizem que Virgem é observador, o Sherlock do zodíaco. Eu vejo isso nela. Ela sempre analisava e saía com uma solução para os problemas. 



A Hermione também era bem perfeccionista. Ela viajava no tempo para conseguir ir em todas as aulas (!!!)



 Virgem analisa, estuda. Assim é a Mione. 


Lord Voldemort




O Tom nasceu dia 31 de dezembro. É capricorniano. Tá explicada aquela ambição toda. Capricórnio vê a vida com seriedade, com disciplina e clareza. O Voldemort era assim. Olha a seriedade do abraço que ele dá no Draco. 



 Ele estava interessado em atingir as suas metas, doa a quem doer. E era super ambicioso: queria conquistar o mundo bruxo inteiro. 

Já li que Capricórnio se importa com dinheiro e posição social. Me parece muito com a história dele. O pai dele, que o abandonou (alias, já li em um livro que capricornianos costumam ter problema com o pai), era rico. Sua mãe era descendente do fundador da Sonserina. Tá tudo aí. 


Gina Weasley 




Gina nasceu dia 11 de agosto. É leonina também. Também sinto essa vibe fogo vindo dela. Ela era super impetuosa e corajosa. Sempre foi independente, cheia de energia. Lembra quando ela discutiu com o Rony porque ele implicou com ela só porque ela tava beijando o Dino em público? Ela não ficou quieta não. 

Ela já revidou verbalmente até o Draco. E quando ela era pequena. 




Severo Snape




Snape nasceu dia 09 de janeiro. É capricorniano também. O que explica se dar bem (nem que seja um pouquinho) com o Voldemort. Sempre falam que capricorniano é sério, passa essa energia de frieza, disciplina. Combina com o Snape também. O próprio nome dele significa severidade e seriedade!!!




Neville Longbottom 


OLHA. ESSE. GIF. 


Neville nasceu dia 30 de julho também. É leonino. Super corajoso. No final, ele enfrentou Voldemort. Ele até chegou a dizer como Neville era valente e o convidou pra integrar a equipe dos Comensais. 

A atitude do começo, insegura, acredito que existia devido à ansiedade e baixa auto-estima decorridos do fato de que os seus pais morreram nas mãos de torturadores. É um baita de um trauma, mas ele superou. 

Apesar de que ele já demonstrava uma coragem grifinoriana desde pequeno sim. 



Luna Lovegood





Não consegui achar a data, mas já li em algum lugar que ela é de Aquário. Sabe quando falam que os aquarianos são os diferentões do zodíaco? Então. 

A Luna é super excêntrica. Se veste de uma forma única e criativa. 



Ela conversa sobre uns assuntos meio místicos, sobre morte. A Luna é bem original. Ela é tão aquariana que chegar a doer. 

OLHA. ESSE. GIF. Coisa mais fofa. 


Draco Malfoy 




Draco nasceu dia 6 de junho. É geminiano. Por isso era todo comunicativo, não tinha medo de falar nada. Falava mesmo. Na cara da pessoa. 


Harry e Gina




Os dois são leoninos, tem a mesma vibe. Dá certo! Normalmente, signos do mesmo elementos se dão super bem. Não sei se um pouquinho de orgulho dos dois não vai atrapalhar mas, no geral, é a mesma energia fluindo. 


Hermione e Rony





Água e terra é amor. Dizem que toda a sensibilidade e misticidade de Peixes pode fazer com que Virgem estranhe, afinal, ele é super prático, mas água e terra dá certo sim. Eu sou de terra, sei como me sinto bem do lado do elemento água, que é todo sensível. Conheço MUITOS casais água e terra. Todas minhas amigas de água falam que o parceiro de terra dá uma segurança e uma estabilidade que eles, de certa forma, podem precisar. 


Harry e Luna


Esse gif é tudo que eu amo


Sempre shippei os dois. Leão e Aquário são opostos complementares. Atração imediata. Eu queria ver isso, ia dar certo sim. 



Conclusão


Adoraria entrar em uma conversa sobre astrologia e Harry Potter. Fiquem a vontade para me corrigir, fazer comentários e revelar casais estranhos que vocês shippavam. 



Por onde começar a ler Sherlock Holmes



Sherlock é um nome muito conhecido. É só falar que você vai imaginar um detetive com uma lupa e um cachimbo. Já tá no imaginário coletivo. 

Mas por onde começar? 

Há 4 romances e 56 contos. É mistério resolvido pra dar e vender. 

Ano passado fiz uma aula na faculdade sobre romance policial. Um dos motivos que me chamou atenção foi a presença da leitura de Sherlock Holmes. Eu simplesmente não sabia por onde começar a conhecer esse personagem tão famoso. São 56 contos! Por onde eu começo? 

Por isso, vou fazer uma espécie de guia para entrar nessa jornada chamada "acompanhar um detetive excêntrico na literatura britânica". Já aviso que não sou uma especialista, li pouco e vai ser só uma dica. Vou recomendar um romance e os dois contos que eu tive que ler para a aula. 

Primeiramente, algumas informações... 


O que é romance policial 


Todo mundo que acompanha séries hoje em dia sabe a quantidade de procedurais que existem e continuam saindo sem parar. 

Uma série procedural é aquela que tem um caso por semana e toda uma investigação para descobrir quem cometeu o crime.  Tipo CSI, Gotham...

Twin Peaks foi uma série que fez muito sucesso no anos 90 e girava em torno de uma questão: quem matou Laura Palmer? 



Mistério chama atenção e não é de hoje. Romances policiais surgiram no final do século XIX e venderam bastante. Holmes não é o único detetive criado. Na verdade, toda essa brincadeira começou com um detetive criado pelo Edgar Allan Poe: o Dupin. 

Mas o que é o tal do romance policial? O que ele precisa ter pra receber esse nome? Simples. A estrutura narrativa deve possuir os seguintes itens: 

a) um crime 

b) uma investigação

c) a revelação do malfeitor 

O foco da história é todo na elucidação do mistério. O leitor vai, de mãos dadas com o detetive, descobrindo pista por pista até chegar ao que realmente aconteceu. O romance policial não foca na mente do criminoso e no que ele estava pensando, foca na figura do detetive. 


Autor





Procurei "sir" no Google e a primeira sugestão já foi Sir Arthur Conan Doyle. 

Conan Doyle nasceu em Edimburgo, capital da Escócia, no Reino Unido. Ele nasceu em 1859. Geminiano. 

As histórias de Holmes foram consideradas uma grande inovação. A quantidade de fãs que o detetive tinha era grande. Uma história interessante está no livro Conversando com Mrs. Dalloway. Conforme a popularidade de Holmes foi aumentando, Conan Doyle foi perdendo o interesse. Ele queria escrever "coisas melhores". Logo, matou o personagem em O problema final. A questão é que os fãs ficaram tão tocados ao ponto de pessoas andarem na rua com uma tarja preta no braço como sinal de luto. 

Conan Doyle não se importou tanto. A única coisa que ele fez foi escrever "Matei Holmes" em seu diário. 

Do mesmo jeitinho que o Kafka escreveu, em 1914, em seu diário: "A Alemanha declarou guerra contra a Rússia. À tarde, fui nadar". 

O mundo lá fora tá um caos, mas matei Holmes, fui nadar. 

Mas só pra vocês saberem, os leitores não aceitaram mesmo a morte. Conan Doyle inventou uma solução e voltou a escrever sobre o detetive. 

Ressurgindo das cinzas como uma fênix. 

Conan Doyle morreu em 1930. Ele estava com 71 anos e teve um ataque cardíaco. Suas últimas palavras foram direcionadas à esposa: "Você é maravilhosa". 


Contexto do lançamento


Sherlock Holmes apareceu pela primeira vez no romance Um estudo em vermelho, lançado em 1887. Conan Doyle estava com 28 anos. Ano em que o gramofone foi patenteado e Heitor Villa-Lobos nasceu, no Brasil. 


Por onde começar




Se você quiser ser apresentado ao Sherlock e conhecê-lo aos pouquinhos, como você faria com qualquer outra pessoa na sua vida, comece por Um estudo em vermelho

A narrativa é feita em primeira pessoa por Watson, um médico que está procurando um colega de quarto. O aluguel tá caro e ele precisa dividir um apartamento com alguém. Indicam Holmes. Watson não se importa com o cheiro de tabaco e com excentricidades. Logo, eles vão morar na rua Baker. 

Logo de primeira o Holmes já descobre que o Watson estava no Afeganistão. Esse é um ponto interessante sobre o detetive. A forma como ele descobre as coisas só pelo olhar. Ele vê o mundo como ninguém mais vê. Ele vê, cria hipóteses e chega às conclusões com muita rapidez. A lupa é como um portal. 

Segundo Watson, Holmes não sabe nada sobre literatura, astronomia e filosofia. Mas conhece ópio e venenos. Sabe bastante sobre química. Reconhece vários tipos de solos com um olhar. Curte esgrima, boxe e é espadachim. Já escreveu sobre tabaco. E toca violino. 

Aos poucos, Watson vai estranhando a rotina do colega até descobrir que ele é um detetive. Quando ele vê, já está acompanhando Holmes em um mistério. Um corpo foi encontrado, há um anel no chão e a palavra RACHE na parede, pintada com sangue. 

A história é muito interessante. O recurso do flashback foi muito bem usado. Contudo, confesso que o livro não me empolgou tanto. Apenas no começo. Faltam poucas páginas para eu terminar. 


Conto: O roubo da coroa de Berilos





Tem essa coroa linda cheia de jóias. Ela é muito importante para a aristocracia. O dono leva até o banco para que a guardem. Só que o responsável do banco fica com tanto medo que algo de ruim aconteça que ele decide que levar para a sua casa é mais seguro, assim, ele vai poder ficar de olho na coroa a noite inteira. Ninguém da sua casa irá roubá-la. Né? 

Errado. Ele não se segura e acaba contando para alguns familiares que a coroa está lá. Só que a coroa... some. 

Quem roubou? 


Conto: O mistério do vale Boscombe





Um homem idoso é encontrado morto no bosque logo após uma briga com o filho. A culpa cai toda no herdeiro. Mas tem algo de estranho nessa história e Sherlock Holmes percebe.  

Quem realmente matou esse homem? O que o passado pode ter a ver com isso? 

Se eu não me engano, nesse conto tem Sherlock Holmes rolando na lama para descobrir evidências. Sempre válido. 


Conclusão



Achei os contos bem bacanas e li com rapidez. Isso porque não sou fã de romance policial. Adoro filmes de investigação, tipo Garota exemplar e Zodíaco (ambos do David Fincher, olha isso), mas sinto muita pressa para descobrir as coisas. Por isso, o romance foi mais difícil para mim. Depois que eu descobri quem era o assassino e a sua motivação, perdi o interesse. 

Pra quem gosta: prato cheio. Vale o rolê. 

Achei muito interessante como disseram, na aula, que o que prende o leitor a essas histórias é a própria presença do Holmes. Mesmo sendo meio arrogante e super excêntrico, o leitor quer mais disso. 

Se for para eu indicar romance policial, indico a trilogia Millenium. Livros de 500, 600 páginas que eu devorava em três dias. O primeiro, Os homens que não amavam as mulheres tem um mistério super envolvente sobre o desaparecimento de uma menina. E tem Lisbeth Salander, a minha personagem preferida do universo. E tem toda uma discussão sobre a violência contra a mulher na Suécia (e no mundo). 




Sobre a edição 



Esses livros que eu tenho são da Editora Melhoramentos. Foram lançados em 1999. 

O tamanho da página, as folhas brancas e a capa frágil me incomodaram, mas enquanto eu estava mergulhada na leitura, não me importei. 




Resenha: O Som e a Fúria - William Faulkner



Título


O som e a fúria


Autor





William Faulkner nasceu no Mississippi, nos EUA, em 1897. Libriano. Foi escritor. Considerado, do seu país, um dos mais importantes do século XX.

Faulkner escreveu bastante sobre o tema da decadência do sul dos EUA. Região conhecida pelo antigo sistema escravista e foco na agricultura. Ele criou um condado sulista onde suas histórias acontecem: Yoknapatawpha. O nome é demais. Usou o fluxo de consciência para fazer com que o leitor entrasse na mente das personagens. 

Ele morreu em 1962, por causa de algumas complicações cardíacas. 


Contexto do lançamento 


O som e a fúria foi lançado em 1929. Faulkner tinha 32 anos. Ano em que a Bolsa de Valores de Nova York quebrou e deu início à Grande Depressão, uma crise econômica bem séria. Acho muito interessante como o Faulkner lançou um livro que fala  sobre a dor e a tristeza em uma época que recebeu um nome referente à depressão. 

Conta a lenda que Faulkner tinha sido rejeitado por algumas editoras. Então ele decidiu que ele se dedicaria ao livro que ele realmente queria escrever. Sem se importar se venderia, sem se importar com os editores. Daí nasceu O som e a fúria. Um livro, estruturalmente, bem louco que lhe deu renome e sucesso entre os críticos (mas não sucesso comercial). 


Sobre



O foco é todo na família Compson. Uma família em decadência financeira e que assiste ao próprio fim de seu prestígio social. Eles tem uma fazenda enorme, empregados (que recebem um tratamento cheio de resquícios da escravidão), mas estão em processo de deterioração. 

O local é o sul dos EUA. O período é difícil dizer. O Tempo é um conceito muito trabalhado nesse romance, de diferentes maneiras. Cada personagem o sente de uma forma. 

O livro é dividido em quatro partes. Cada parte é um dia na vida de um personagem. Então temos a experiência de viver três dias na cabeça dos três irmãos (Benjy, Quentin e Jason). Todos meio obcecados pela irmã, Caddy. A quarta parte é feita por um narrador onisciente, mas foca bastante na empregada da família, a Dilsey. 

Tem essa peça do Shakespeare chamada Macbeth. Nele, o personagem que dá nome à peça diz que a vida é "uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada". 

É exatamente isso que acontece. 

A primeira parte é narrada pelo Benjy. Um homem tido como "idiota" por todos os outros. Em nenhum momento do livro o leitor sabe exatamente qual é a sua doença. Ele não consegue se expressar. Ao tentar falar, berra. Ele chora, baba. É surdo-mudo. Enfim, é uma situação difícil. 

No começo, sem muitas informações, achei que era autismo, mas não é. A maior parte dos críticos acredita que seja síndrome de Down, mas também não sei se é. No final das contas, ficou marcado que o nome da condição do Benjy não importa. O foco aqui é outro. 

É incrível entrar na sua cabeça. O Benjy não faz distinção de presente, passado e futuro. Ou seja, tudo acontece ao mesmo tempo. A narração vai estar indo bem ok, aí começa um trecho em itálico que você não faz ideia da onde que veio. 

É uma viagem. E é bom deixar ser levado por ela. As informações vão chegando aos poucos. 

Alguns críticos já encontraram 8, 14, 16, 20 temporalidades diferentes nessa primeira parte, que ocorre no dia 7 de abril de 1928. A mente do Benjy é um caleidoscópio de dor e lembranças. É viagem no tempo atrás de viagem no tempo. 

Mas o que tá acontecendo afinal de contas? 



A Caddy tá acontecendo. 

Ela é uma mulher forte e transgressora. Desde o início da história, quando eles eram crianças, ela era a pessoa que estava 100% nem aí, subia na árvore mesmo quando diziam para ela não subir. 

Ela é uma figura materna para Benjy e Quentin, embora de maneira meio sexualizada. É a única que tem paciência para lidar com o Benjy. E é grudada com o Quentin. 

Para Benjy, ela tem cheiro de árvore. 

Mas perde esse cheiro na adolescência. Porque estamos num período conservador e machista e Caddy será atingida por isso. Ela perde esse "cheiro de árvore" quando começa a ter relações sexuais com alguns homens no bosque. É toda aquela ideia de "pureza feminina". Caddy continua 100% nem aí para o que as pessoas pensam. 

Faulkner, além das quatro partes, escreveu um apêndice, onde conta o futuro dos personagens e mais umas coisinhas interessantes. Uma delas é o fato de que, para Caddy, o hímem era apenas um "frágil empecilho físico" que não valia nada. 

A Caddy é demais. 

Acontece que ela fica grávida e a família não aceita que isso tenha acontecido antes do casamento. Muita coisa acontece depois, mas só vou deixar uma dica aqui: a filhinha dela também se chama Quentin. 

E falando em Quentin... Quem fica obcecado por essa ideia do hímen é ele. 

Para "salvar" a irmã, ele propõe dizer ao pai que o filho é dele e que eles cometeram incesto. Não satisfeito com isso, propõe até suicídio duplo. 

O dia 2 de junho de 1910 é dele. Um dia muito importante, por sinal. O Quentin é apaixonado pela morte e a irmã não sai de seus pensamentos. Basta dizer isso. 



O pai deles vendeu um pedaço da terra para que ele estudasse em Harvard, mas ele não se importa muito com isso. Ele está focado na sua dor e em como evitar o tempo. Ele está absolutamente empacado no tempo. Não quer o futuro, quer voltar ao passado. Voltar para a época em que ele estava ao lado da irmã e eles eram felizes. Só que isso é impossível. Viagem no tempo só dá pra fazer na mente.

A terceira parte se passa no dia 6 de abril de 1928, um dia antes da memória do Benjy.  Temos aqui a mente do Jason, um homem irritante, machista, insuportável. O filho mais excluído que deixou o seu coração se transformar em uma cachoeira de puro rancor. 

O problema dele é que ele odeia todo mundo. Principalmente a filha da Caddy, Quentin. 

Logo depois vivemos o dia 8 de abril de 1928, um dia depois da narração de Benjy, pelos olhos de um narrador onisciente. Aí temos um vislumbre de vários personagens. 

Só queria tirar um segundo para dizer o quão bonita é a narração empregada pelo Faulkner. É aquela prosa poética que te faz ler a mesma linha duas vezes, só pra poder sentir tudo o que há para ser sentido. A estrutura narrativa começa bem difícil com o Benjy. Há itálico, há confusão, falta de acentuação. E isso continua, de certa forma, com o Quentin. Ele é todo fluxo de consciência. Depois vai ficando mais linear, a partir do Jason. Nunca deixa de ser belo. É apenas um livro complicado, que vai se abrindo, ficando mais fácil. 

O Modernismo tem dessas. Li esse livro para uma aula sobre o modernismo inglês e o professor comentou como as obras dessa época resistem ao consumo imediato. Não dá pra consumi-los como qualquer outra mercadoria. É livro-desafio. É literatura desconstruída e praticada livremente. É embarcar em uma viagem e encontrar novas sensações e conflitos. 

O professor também disse: "O livro é bom, mas é um inferno."

E é mesmo. É difícil se situar, leva um tempo. Aí é que entra outra coisa que eu aprendi na aula: a importância da não-compreensão. 

Do momento em que acordamos até o momento em que dormimos, entendemos as coisas. 

Se a luz é ligada, você sabe o que tá acontecendo. Se alguém fecha a janela, você entende o que aquele ato representa. Você está situado. 

A não-compreensão desestabiliza. É difícil se entregar e não saber o que está acontecendo. Temos que valorizar isso. O livro te desestabiliza, é um quebra-cabeça esperando ser montado. 

A dica que eu dou é: procurem a história inteira. Eu só contei até uma parte, porque não quero dar spoilers, mas procurem o resto, caso a não-compreensão esteja insuportável. Muita coisa acontece ali. Quentin comete algo sério no dia 1910, em relação a ele mesmo. A história da Caddy se casar é toda cheia de detalhes. O que aconteceu com ela? Por que o Jason tem tanta raiva da Quentin? 

É um romance, escrito de forma sensível e poética, sobre uma família disfuncional. Todos estão sofrendo, todos sentem dor e todos não conseguem aceitar o conceito do Tempo. 

Várias marcações


Bom pra quem gosta de... 


... desafios, mil temporalidades, narração maluca, problemas familiares, narração bonita.


Cinema 


Uma adaptação desse livro foi lançada em 2014. É dirigida e estrelada pelo James Franco. Pelo que eu fiquei sabendo, ele interpretou o Benjy. Estou super ansiosa para assistir. 



Sobre a edição 


Eu tenho a edição da finada Cosac Naify. É da coleção portátil, logo, é como uma edição de bolso. A capa é um pouco frágil, ele é pequeno e o preço é menor. Gosto muito das páginas, elas são meio amareladas. A fonte é boa também. 

Essa edição foi lançada em 2012. Possui 379 páginas. 


Um trecho 


"Era o relógio do meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe esse relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios."

Tá tatuado na alma.